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domingo, 11 de setembro de 2011

Os professores são importantes, sim!

Quando o assunto é desescolarização eu educação sem escola, as primeiras pessoas que reagem negativamente são os professores. Se eu penso que a educação fora da escola (esta escola que conhecemos hoje) é melhor, os professores são então desnecessários?

Primeiro gostaria de fazer uma breve retrospectiva histórica: o que eram os professores de antigamente? No geral eram pessoas que dominavam uma arte: os marceneiros que tinham habilidade para ensinar o ofício ensinavam marcenaria aos aprendizes, o mesmo para os ferreiros, os agricultores, os músicos. É bastante recente na história da humanidade uma especialização em "ensino" isolada do domínio de alguma habilidade concreta. Essa especialização tem muitas vantagens, mas também tem uma desvantagem - um professor com formação exclusivamente em pedagogia costuma ser menos interessante para uma criança do que um músico, um geógrafo, um matemático, um pintor que fale apaixonadamente sobre sua área.

A desescolarização não é contra os professores. É sim, contra o ensino compulsório. É contra o professor decidir (ou obedecer quem tenha decidido) o que será ensinado ás crianças sem a participação delas. É a favor de permitir que a criança explore o aprendizado e o conhecimento de maneira autônoma, com liberdade para estar com os professores ou outro profissional que ela deseja.

Recentemente eu passei a sentir muita vontade de aprender a desenhar. Corri atrás de uma professora que está me ensinando, e tem sido maravilhoso. Terrível seria eu ser forçada a aprender técnicas de desenho, em qualquer momento da minha vida em que eu não estivesse interessada nisso. Uma delícia tem sido este aprendizado agora, que eu manifestei esta vontade.

Os professores são fundamentais, indispensáveis, como facilitadores do aprendizado. Mas são verdadeiros traumas na vida de muitas crianças quando estão ali para impor.

Para os professores ou estudantes que pretendem seguir suas carreiras dentro de escolas tradicionais, eu sugiro que também pesquisem sobre desescolarização, porque há muitas informações valiosas que podem ser usadas dentro de sala de aula, para tornar mais agradável o aprendizado e a convivência com as crianças. O educador norte-americano John Holt tem muitas ideias e reflexões interessantes sobre isso no livro "What do I do Monday?".

Ajudar, apoiar, iluminar o caminho. Jamais cercear ou impor.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Educação livre - por quê?

"Já que nós não sabemos quais conhecimentos serão os mais necessários no futuro, não faz sentido tentar ensiná-los antecipadamente. Ao invés disso, nós deveríamos formar pessoas que amam tanto aprender e que são tão hábeis em adquirir conhecimento, que elas podem então aprender o que for necessário ser aprendido a cada momento."
- John Holt

Eu fui uma aluna considerada bem-sucedida na escola. Sempre tirei notas excelentes. No entanto, se eu tentar fazer um balanço, certamente não retive mais do que a metade da matéria que me foi ensinada ao longo dos meus anos escolares. No caso das crianças que foram mal na escola, certamente a porcentagem de aproveitamento é muito menor. Contando a partir da minha alfabetização, foram doze anos frequentando a escola seis horas por dia, cinco dias na semana, nove meses no ano. Se a escola me ensinou a fazer conta, eu digo que foram cerca de 14 mil horas assistindo a aulas, das quais pelo menos 7 mil foram completamente desperdiçadas. Agora eu pergunto, quem vai me devolver 7 mil horas da minha juventude? O que eu poderia ter aprendido ou produzido, que lugares eu poderia ter visitado, que pessoas eu poderia ter conhecido, ao invés de estar sentada numa cadeira devaneando, escrevendo bilhetinhos, rabiscando ou fazendo qualquer outra coisa que me ajudasse a lidar com o tédio?

É claro que algumas famílias preferem que a educação dos seus filhos aconteça na escola, dentro dos modelos existentes, com os currículos e provas e com as sete mil horas de tédio indo embora pelo ralo da juventude (um "mal necessário", creem eles). Eu não concordo, mas respeito o direito delas. Outras famílias percebem que tem alguma coisa errada nessa história toda, mas não acreditam que haja uma alternativa. E tem as famílias, entre as quais incluo a minha, que não acreditam que esse modelo seja o melhor para seus filhos, e que buscam um caminho diferente.

Muitas famílias acreditam que as crianças podem seguir seus "anos escolares" desvendando o mundo da mesma maneira como fazem desde que nasceram, ou melhor, desenvolvendo cada vez mais essa prática. Os bebês aprendem vendo, tocando, sentindo, cheirando, quebrando, caindo. Na medida em que crescem, se a elas for dada permissão e incentivo, as crianças se envolvem nas tarefas dos demais membros da família, fazem perguntas, abrem livros, procuram especialistas que respondam perguntas que seus pais não sabem responder, aprendem soma e subtração no simples ato de fazer uma compra no mercado, aprendem sobre juros ao participar das finanças da família, aprendem frações tentando dividir cinco barras de chocolate entre três irmãos, aprendem a ler para compreender o bilhetinho que o papai deixou, aprendem a escrever para compor uma cartinha de feliz aniversário para a vovó. Aprendem história, geografia, física, matemática, literatura, antes mesmo de saber que os adultos fazem essa divisão dos assuntos. E mais, aprendem felizes, entusiasmadas, porque aprendem de verdade, e não esquecem no dia seguinte como as crianças na escola que só estudaram para a prova.

No livro "Teach Your Own", John Holt traz dezenas de exemplos de crianças normais, de famílias normais (de todas as classes sociais), que alcançam aprendizados extremamente complexos para suas idades, somente porque elas tinham interesse no assunto. Um menino de sete anos que passou um mês só estudando química de nível de graduação porque se interessou pelo mundo dos átomos; outro de onze anos que fez um curso de astronomia junto com adultos, quase todos estudantes ou formados em física e matemática; uma menina de cinco que aprendeu sobre todo o ciclo de vida das borboletas. Tudo isso com o incentivo e ajuda dos pais, que não sabiam todas as respostas para suas dúvidas e curiosidades, mas que sabiam onde achar quem soubesse, encontraram professores universitários dispostos a ajudar (alguns que, inclusive, se tornaram amigos das crianças), encontraram livros, bibliotecas, bibliotecários que os ajudaram.

É extremamente difícil resumir em poucas palavras o que é o unschooling. Em "Teach Your Own", Holt diz:

"Quando pressionado, eu defino unschooling como a permissão para que as crianças tenham a maior liberdade para aprender no mundo que seus pais possam confortavelmente comportar. A vantagem deste método (sobre o método school-at-home) é que ele não requer que os pais se transformem em outra pessoa, um professor profissional despejando conhecimento nas veias da criança de maneira planejada. Ao invés disso, vocês vivem e aprendem juntos, perseguindo questões e interesses enquanto eles surgem e usando materiais convencionais da escola quando e se houver demanda para isso. É desta maneira que nós aprendemos antes de ir para a escola e depois que saímos dela."

Por exemplo, o interesse de uma criança por trens pode levá-la a estudar como os motores funcionam (ciência), quando e em que contexto foram inventados (história), para que servem (geografia e economia), etc. Ou o interesse por passarinhos pode levá-la a estudar biologia e ecologia. O importante é que serão interesses da própria criança, um projeto que ela mesma criou, e portanto ela jamais esquecerá o que ela aprendeu.

Eu acredito que é aprendendo desta maneira que elas se tornarão jovens adultos apaixonados pelo conhecimento, extremamente hábeis em aprender qualquer coisa que precisem para seguir com liberdade e entusiasmo o seu rumo pela vida.

domingo, 5 de junho de 2011

A morte do amor pelo aprendizado

“Se eu não estivesse aqui para exigir e cobrar de vocês, vocês não fariam nada.”


As crianças, quando bem pequenas, encontram dentro de si mesmas a motivação para aprender. Mesmo que ninguém exija nada, elas desejam ardentemente aprender a andar, a falar, a correr, a subir, a pular, a encaixar, a fechar, a abrir, a dançar, a equilibrar. Elas não precisam de ninguém cobrando isso delas, porque elas amam e querem muito aprender sobre as coisas deste mundo tão interessante no qual os adultos fazem tantas coisas ainda estranhas. Elas desejam extrair sentido de cada gesto, cada objeto, cada engrenagem, cada ser vivo, e para isso vão conquistando o aprendizado de coisas extremamente complexas numa velocidade que deixa toda mãe e todo pai atônitos.


Então por que um professor falaria tal frase para um grupo de alunos? O que aconteceu no meio do caminho para que essas crianças antes tão apaixonadas e tão hábeis em aprender se transformassem em crianças desinteressadas, que não prestam atenção, que não fazem as lições e não aprendem nada se não estiverem sob a força de um cabresto?


O que aconteceu é que a partir do momento em que elas foram para a escola, elas foram perdendo aos poucos a motivação que havia dentro delas mesmas. Ao ser submetida a currículos e provas, a criança vai mudando o foco do aprendizado: antes, era preciso aprender para fazer coisas legais, para atender a uma necessidade ou vontade daquele momento; agora, é preciso aprender para ganhar uma boa nota, para passar de ano, para agradar ao professor e para agradar aos pais. E é preciso aprender coisas que não interessam naquele momento, que são parcial ou completamente desconectadas de sua realidade. Na ordem em que o currículo manda, e não na ordem da sua curiosidade, da sua ansiedade em entender as coisas do mundo.


Não há outra conseqüência para esta prática do que a morte de quase toda centelha de alegria e amor pelo aprendizado. Pode ser que essas crianças, na vida adulta, consigam se libertar da institucionalização do ensino e reconquistar esse amor pela compreensão do mundo. Mas certamente nunca em sua totalidade.


(a frase é do filme “entre os muros da escola”)